Há uns anos atrás eu fui o Vice-Presidente de Recursos Humanos do Banco ABN AMRO Real em São Paulo. Era a virada do século, ou talvez eu devesse dizer, a virada do milênio, uma época em que o Brasil estava se preparando para a eleição de 2002 do Presidente Lula, o primeiro sindicalista a se tornar Presidente do País vindo da classe operária e que não tinha uma educação universitária.

Os sindicatos do Brasil eram geralmente menosprezados pelos empregadores; eram considerados meros arruaceiros, radicais políticos que deviam ser combatidos em todas as oportunidades, com a mesma tenacidade que esses líderes demonstravam ao liderar protestos nas portas de fábricas. Deviam ser rejeitados com a mesma persistência que o “Lula” estava demonstrando como candidato, pois ele concorria a Presidente pela quarta vez.

Os sindicatos bancários eram um dos mais poderosos e influentes no Brasil e geralmente organizavam greves que abrangiam o País inteiro. Isso acontecia pelo menos uma vez por ano, logo antes das negociações salariais, que deveriam acontecer em setembro, depois de muitas agressões verbais de parte a parte com os empregadores, nas mesas de negociação e também através da imprensa. Ás vezes havia também alguma violência, como jogar pedras nas vitrines das agências bancárias, ou bloquear fisicamente a entrada dos prédios onde os bancos tinham os seus centros operacionais ou as suas casas matrizes. Muitas vezes também os sindicatos contratavam jagunços para fazerem linhas de piquete. Depois de tudo isso, eventualmente se obtinha um acordo e se conseguia restaurar a paz. Mesmo assim, durante o ano, haviam por vezes demonstrações, protestos contra determinadas condições de trabalho, contra o salário insuficiente, ou contra programas de demissões. Haviam protestos contra a terceirização ou contra a demissão de empregados específicos que teriam sido dispensados injustamente pelos seus chefes.

Naquela época, decidimos tratar essa questão de relações industriais de uma forma diferente. Eu comecei a encarar a situação como uma espécie de triângulo amoroso: entre os gestores do banco, o quadro de pessoal e o sindicato.

O eterno triângulo

Na minha perspectiva a gestão do banco precisava considerar o nosso quadro de pessoal como se fosse uma amante que estava se distanciando de nós. O outro homem (ou a outra mulher, dependendo do caso), o rival, recebendo o afeto do quadro de pessoal, era o sindicato. Num triângulo amoroso, se você descobre que a pessoa que você ama está sendo cortejada por um rival, você tem duas coisas que você pode fazer. (Na verdade, pode ser que existam muito mais coisas que você possa fazer, mas a decisão mais frequente que as pessoas precisam tomar é entre duas opções). Primeiro: você luta com o seu rival, verbalmente ou fisicamente, desafia o rival para um duelo ou simplesmente mata o cara. Esse é o enredo de muitas histórias e romances desde há muitos séculos. A segunda opção: você tenta reconquistar o amor da pessoa amada, de modo que essa pessoa amada escolha ficar com você ao invés de escolher o seu rival.

Acontece que destruir o seu rival enseja um enredo melhor, mais dramático e mais interessante; e portanto esse é o enredo mais frequente das novelas, dos romances da literatura e também das histórias do folclore. A situação clássica é que a pessoa amada está, de certa forma, dividida entre você e o seu rival. Se você elimina o seu rival, ela vai ficar com você, ou pelo menos é isso o que você pensa. Em muitas histórias, no entanto, quando você, furioso, bate no seu rival, ele se torna vítima da sua raiva; e a sua pessoa amada passa a consolar o seu rival, ao invés de se voltar para você. Ela rejeita você como agressor e toma o lado do rival como vítima.

Uma estratégia muito mais eficaz, na minha opinião, seria focar a atenção em reconquistar o amor da pessoa amada. Você precisa se declarar para ela e distrai-la do seu rival. Eu sei que isso pode ser mais difícil de fazer, especialmente para algumas pessoas que ficam raivosas e furiosas com muita facilidade e que gostariam simplesmente de fazer o rival em pedacinhos.

Nas relações sindicais brasileiras, a atitude mais comum dos gestores das empresas é lutar com o rival, (que é o sindicato) pensando que, com isso, necessariamente, o quadro de pessoal ficará do lado da empresa, ao invés de ficar ao lado do sindicato e dos protestos. O que ocorre na prática, muitas vezes, é o oposto: quanto mais você luta contra o sindicato, mais o quadro de pessoal toma o lado do sindicato e se volta contra a empresa.

Uma abordagem diferente

Nós decidimos focar a nossa atenção no quadro de pessoal, ao invés de dedicar a nossa energia a lutar contra o sindicato. Tentamos fazer com que o nosso pessoal fosse realmente tratado com justiça, com respeito, com carinho. Oferecemos benefícios que eram um pouco melhores do que a maioria dos outros bancos, proporcionamos mais oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento do que em qualquer outra organização, encorajamos a participação em todos os níveis, treinamos e fizemos coaching com os nossos gerentes, para que eles fossem melhores na liderança de suas equipes. Abrimos canais diretos de comunicação com as pessoas em toda a empresa, de modo a possibilitar que eles se queixassem de qualquer tratamento que não fosse justo e que pudessem nos levar, então, a corrigir alguma coisa que não estivesse acontecendo como deveria.

Não conseguimos mudar a situação de uma hora para a outra, não foi algo que aconteceu da noite para o dia. Mas depois de dois anos mantendo essa abordagem sistemática, os resultados eram evidentes. A satisfação no emprego se tornou extremamente alta, o engajamento estava cada vez mais elevado. Os nossos funcionários não aderiam aos piquetes e aos protestos. Houve até mesmo uma ocasião, memorável, em que o sindicato estacionou um caminhão de som em frente ao nosso escritório principal, na Avenida Paulista, no centro financeiro de São Paulo.

Diferentes líderes sindicais estavam fazendo discursos eloquentes, xingando os nossos diretores, justamente na hora do almoço, quando milhares de funcionários saíam do prédio principal para almoçar fora e depois retornavam uma hora depois. Uma das nossas funcionárias subiu no caminhão de som e pediu o microfone. Quando o líder sindical entregou o microfone para essa pessoa, ela fez um discurso eloquente… criticando o sindicato e elogiando o banco. Disse que aquilo que o sindicato estava dizendo era um monte de mentiras. Falou que eles não estavam ajudando os funcionários, tentando provocar uma briga com a diretoria do banco. Disse que essa diretoria era a melhor equipe de gestão com a qual ela jamais havia trabalhado, as pessoas no banco eram tratadas com respeito, com carinho e com atenção, algo que nunca tinha se visto em qualquer outro banco.

Bom, essa foi a última vez que o sindicato estacionou um carro de som em frente ao Banco Real. A partir daí, o sindicato resolveu focar a sua atenção em outros bancos. Quando eles vinham discutir as coisas conosco, eles eram bem mais educados e genuinamente interessados em trabalhar junto conosco, ao invés de contra nós. Em lugar de confrontar o banco, eles por vezes se queixavam, mas com um tom mais modesto, mais humilde, pedindo que a gente desse mais atenção às causas que eles estavam apoiando. Queriam ser tratados com o mesmo respeito, com a mesma atenção, com o mesmo carinho que estávamos dando para o nosso quadro de pessoal em geral. Isso durou quatro anos, até que eu deixei o ABN AMRO Real em São Paulo e me mudei para a Holanda.

No amor e na política

A situação política no Brasil, e também em outras partes do mundo, é muito semelhante a esse triângulo amoroso. A elite brasileira, os 1% que detêm a maior parte da renda do País, que têm os níveis mais altos de educação e que têm acesso aos melhores benefícios sociais e de saúde, estão num triângulo amoroso contra os seus rivais, que são os radicais dos sindicatos, da extrema esquerda, os anticapitalistas, os jihadistas que lutam contra o domínio ocidental. A terceira parte nesse triângulo são as maiorias silenciosas, os milhões de pessoas que querem simplesmente continuar com a sua vida em paz e que querem segurança, educação, emprego e saúde.

Se a elite continuar a não atender as necessidades básicas da população e ao invés disso, continuar a focar a sua atenção em lutar contra os líderes sindicais, lutar contra o Estado Islâmico da Síria e os seus equivalentes revolucionários, na verdade com isso eles estarão alimentando as revoluções. Eles estarão fazendo a sua própria sobrevivência como elite cada vez mais difícil. A elite precisa mudar a sua atenção para melhorar as condições de vida das pessoas em geral, em toda parte. No Brasil, se nós investíssemos mais tempo, energia e dinheiro em educação, nós poderíamos viver em uma sociedade muito melhor, com menos criminalidade e menos violência. Quanto mais a gente foca energia simplesmente em lutar contra a criminalidade e não em melhorar as condições de vida, através de educação e saúde, mais a gente dá munição para a esquerda radical e mais a gente assegura que uma vida criminosa acabe sendo uma alternativa para tentar melhorar de vida, para quem não tem educação e para quem está desempregado.

A elite brasileira coloca a culpa de tudo no PT e dirige a sua energia em lutar contra o PT. Eu acho que a elite está focando no lado errado do triângulo, eles precisam focar no lado das pessoas pobres, que vivem na base da pirâmide social brasileira. Quando se conseguir acabar com a pobreza, quando milhões de pessoas se tornarem parte de uma verdadeira classe média, o PT não terá mais o apoio que ele tem hoje. O PT se alimenta da injustiça social. Se a elite acaba com a injustiça social, o PT vai morrer de fome. Em todo o mundo, se a elite acaba com a inanição, os radicais é que morrerão de fome politicamente.

O problema que precisa ser atacado não é o comunismo, os jihadistas ou os radicais. O problema que nós precisamos atacar é a pobreza. A pobreza alimenta o radicalismo. Se a elite continuar a pensar que a pobreza é uma coisa que só acontece para quem é preguiçoso, um dia eles vão acordar e ver que esses “preguiçosos” estão pegando em armas e estão prestes a matar todo mundo para assumir o poder. Essas pessoas com as armas na mão não estão sendo levadas pelos radicais; elas estão sendo levadas pela fome, pela necessidade, pelo desejo de igualdade, de justiça. Se a elite não consegue organizar a sociedade de uma forma mais justa, mais equânime, então ela vai ter que arcar com as consequências: terá de se retrair, vai ter que se defender em bunkers, cercada de aparatos de segurança. Mas espere ai, isso já está acontecendo, em muitas partes do mundo!

A elite está sitiada, porque não consegue desenvolver uma sociedade mais justa para todos.

O foco da elite precisa mudar nesse triângulo amoroso, tem que se distanciar da luta contra os radicais e se aproximar das massas empobrecidas, tem que erradicar a pobreza.
A assistência médica universal básica é um mínimo que é fornecido na maioria dos países para toda a população. Até os Estados Unidos está pouco a pouco se dando conta de que isso é uma coisa certa do ponto de vista moral.

Essa assistência médica universal precisa ser melhorada, no Brasil e em toda a parte. Devemos colocar a nossa energia em melhorar a assistência médica, em torna-la mais eficiente, torna-la mais barata, ao invés de tentar negar que isso seja uma necessidade básica da comunidade. Quanto melhor a assistência médica, menos espaço existe para os radicais, para a Irmandade Muçulmana, para o Estado Islâmico da Síria, menos espaço vai se deixar para que se possa lutar contra a elite, e vai se preencher esse espaço dando melhores condições de vida para todos.

Fazer uma mudança no sentido de promover educação para as massas não é difícil, a única coisa que se precisa fazer é apoiar efetivamente investimentos em melhores escolas, valorizar os professores, tornar as escolas mais acessíveis para todo mundo, apoiar as iniciativas de ensino com base na internet. Existem milhões de alternativas diferentes que se pode fazer para promover a educação em todos os níveis. Então o que é preciso fazer é apoiar os políticos que promovem essas iniciativas da educação e promover essas iniciativas diretamente, com o trabalho voluntário, por exemplo, dando seu tempo e sua energia para programas educacionais.

Um relacionamento amoroso precisa ser nutrido. Isso é verdade também para os relacionamentos no trabalho, que precisam ser nutridos e para a sociedade em geral. Se você acha que o amor é uma coisa que não precisa de manutenção, é isso que faz com que apareçam os rivais. É isso que faz com que se forme um triângulo amoroso. Se você colocar o seu foco na pessoa que você ama, ao invés do seu rival, você não vai perder a pessoa que você ama. Se você focar o seu cliente ao invés do seu competidor, você vai manter o seu cliente cada vez mais fiel, cada vez mais usando os serviços e os produtos que você oferece. Se nós todos focarmos a nossa energia em melhorar a qualidade de vida das pessoas em geral e acabarmos com a pobreza ao invés de lutar contra os revolucionários, é isso que vai fazer com que a vida seja melhor para todo mundo.