É comum falar de distribuição de renda no Brasil. Não há dúvida de que a renda no País está bastante concentrada no topo da pirâmide social. Meu propósito neste texto não é o de aprofundar a análise estatística desse fenômeno e sim lançar um olhar sobre alguns aspectos da psicologia social dos diferentes grupos que constituem a população brasileira. Proponho que se faça isso usando uma linguagem coloquial e que esse olhar seja o menos acadêmico possível, de tal forma que, como disse o Dilbert, personagem dos quadrinhos de Scott Adams, “até um cara de Marketing possa entender o que você está dizendo.”

Falemos, portanto, de pessoas com renda baixa, média e alta. Para dar uma definição operacional um pouco mais precisa a esses termos bastante gerais, esclareço que no ambiente deste texto, “população” se refere às pessoas que, no Brasil, têm mais de 23 anos de idade e menos de 65. Uso esta definição para permitir algumas classificações de grupos e algumas comparações. É sabido que o Brasil carece de estudos estatísticos que utilizem critérios comuns entre si, fato que acaba prejudicando muitas comparações. Sempre no ambiente deste texto, “renda baixa” significa todos aqueles cuja renda mensal é inferior a três salários mínimos, ou seja, cerca de R$2.200,00. Defino “renda média” como sendo de três a seis salários mínimos, ou seja de R$2.201,00 a R$4.400,00 por mês. Finalmente, “renda alta” é aquela que supera R$4.400,00 mensais. Poderíamos ter discussões infindáveis sobre os critérios de definição desses limites, mas peço que se deixe isso de lado, por enquanto.

Usando os critérios propostos, tomo a liberdade de apelidar o grupo de renda mais baixa: “proletários.” Sei que a patrulha do politicamente correto vai me perseguir do Oiapoque ao Chuí pelo uso do termo, mas vamos em frente. Chamo o grupo de renda média de “remediados” e o grupo de renda alta de “afluentes.” Mais importante do que discutir esses rótulos é olharmos para a distribuição de frequência da população nesses três grupos.

Vejam que temos cerca de 60% da população brasileira (de 23 a 65 anos) entre os proletários; 30% são remediados e 10% são afluentes. Vejam que, se você ganha mais de R$4.400,00, já é “afluente,” embora talvez você se considere “classe média” e os sociólogos de esquerda o considerem “rico.”

Vamos adiante. Muitos dizem (e eu sou um desses) que os problemas sociais do Brasil se resolvem através da educação. Pois bem, a distribuição do nível educacional segue a mesma lógica da distribuição de renda. Ou seja: a educação está também bastante concentrada. Se dividirmos a população (sempre de 23 a 65 anos) em “ignorantes” (aqueles que não têm sequer o secundário completo); “educados” (aqueles que completaram o secundário) e “intelectuais” (aqueles que completaram o curso superior), a distribuição é assustadoramente semelhante à classificação de renda adotada acima no texto. Segundo o IBGE, em 2012 tínhamos 59% de ignorantes, 29,7% de educados e 11,3% de intelectuais.

E se cruzarmos essas duas formas de examinar a população economicamente ativa, temos uma matriz 3 x 3, com nove células. Essas matrizes de nove células são muito utilizadas em empresas, mas menos empregadas no mundo acadêmico.

Ao lançarmos nosso olhar sobre o Brasil utilizando como prisma essa matriz de nove células, temos diante de nós um quadro deveras dramático. A distribuição encontrada é mais ou menos a seguinte (cometi vários arredondamentos, mas a precisão estatística não altera as conclusões que pretendo expor em seguida): na primeira coluna da matriz, 39% dos brasileiros (de 23 a 65 anos) são ignorantes proletários; 18% são ignorantes remediados; e 2% são ignorantes afluentes.

Olhando para a segunda coluna dessa matriz, vemos que 18% são educados proletários; 9% são educados remediados; e 3% são educados afluentes.

Na terceira coluna, vemos que 2% são intelectuais proletários; 3% são intelectuais remediados; e 6% são intelectuais afluentes.

Conclusões para começo de conversa

Estamos diante de nove Brasis, ao olharmos para esses nove grupos. Nem falamos em regiões geográficas. Se pensarmos nas cinco regiões clássicas do Brasil (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Leste e Sul) teremos então 45 Brasis diferentes… Mas não quero enveredar por esse caminho para não alimentar a noção nihilista de que “o Brasil é tão complexo que não adianta discutir e nem adiante querer fazer nada.” O Brasil pode ser melhor administrado, sim.

Olhemos para os nove Brasis, então. Os intelectuais afluentes, que representam a elite do País em termos de educação e renda, são apenas 6% da população economicamente ativa. Estamos falando de cerca de 6 milhões de pessoas que ganham mais de R$4.400,00 mensais e têm curso superior completo. Você faz parte da elite e não sabia.

Renda e educação no Brasil em 2012

  59% 29.7% 11.3%  
Mais de 6 SM

R$4.400,00

Ignorantes afluentes

2%

    Educados afluentes

3%

Intelectuais afluentes

6%

 

11%

 

De 3 a 6 SM

Ignorantes remediados

18%

Educados remediados

9%

Intelectuais remediados

3%

 

30%

Até 3 SM

R$2.200,00

Ignorantes proletários

39%

Educados proletários

18%

Intelectuais proletários

2%

 

59%

  Demais (sem sequer o 2º Grau) Secundário completo Superior completo  

O que é importante concluir destes números? Primeiramente, que uma parcela muito pequena da população (cerca de 6% da PEA representam não mais do que 3% da população total, que inclui todos aqueles que não trabalham) constituem a elite intelectual e de renda brasileira. São apenas 3% da população total! É uma parcela muito pequena do País.

Entretanto, como o País é grande (200 milhões de pessoas), essa elite brasileira de 6 milhões é maior do que a PEA da Suécia ou da Dinamarca, por exemplo. Isso leva facilmente a se viver uma ilusão: a de que essa elite é o Brasil.

Isso acontece quando integrantes dessa elite se reúnem para conversar informalmente e discutir “o Brasil.” Que Brasil é esse que discutem, nas redes sociais, em reuniões informais, em quaisquer círculos sociais, sejam virtuais ou presenciais? Facilmente os integrantes dessa elite deixam de perceber que a maioria deles vive numa espécie de “bolha” artificial, distante da dura realidade de 90% da população que ganha menos de R$4.400,00. Em termos relativos (percentuais) esse grupo de 6 milhões de indivíduos é muito pequeno; mas em termos absolutos é um grupo grande o suficiente para caracterizar um mercado de consumo de produtos de luxo, por exemplo, maior do que o respectivo mercado em qualquer país da Escandinávia. O tamanho bruto desse grupo total os leva a pensar (erroneamente) que representam “o Brasil.” Na verdade, representam uma parcela vergonhosamente pequena do Brasil. São apenas um dos nove Brasis.

Em termos político-ideológicos, a maioria desse grupo seriam classificados como sendo de centro e de direita; não todos, vejam bem: os líderes políticos de esquerda fazem parte desse mesmo grupo, pois ganham mais de R$4.400,00 mensais e têm curso superior completo. O irônico, para não dizer trágico, é que esses seis milhões discutem política apaixonadamente e se referem a um Brasil do qual eles não fazem parte em termos de educação e renda. A grande maioria do País é constituída por pessoas que ganham muito pouco e não têm educação. Essas pessoas sequer participam da discussão política; servem de massa de manobra para os pseudo-intelectuais afluentes de direita e esquerda que trocam sopapos virtuais na internet diariamente.

Tanto os líderes de direita como os de esquerda exibem uma arrogância acachapante ao falar de um Brasil muito diferente daquilo que vivem no seu dia-a-dia. Olhem para os nove Brasis de novo e vejam que cerca de 60% da população em idade de trabalhar ganha menos de R$2.200,00; cerca de 60% da população, vista por outro ângulo, não tem nem o secundário completo. Ao cruzar as duas vertentes, temos que quase 40% não têm nem uma coisa nem outra: são ignorantes e proletários.

Quando vejo a multidão que foi às ruas protestar contra o governo no dia 13 de março, a quantidade de pessoas parece impressionante. Todavia, ao ver as coisas em perspectiva, percebo que as pessoas que foram às ruas, infelizmente, estão longe de representar o País. Digo “infelizmente”, porque o Brasil precisa de muito mais gente com consciência política para evitar que se troque um bando de desonestos no governo por outro bando pior ainda.

Não tenho dúvida de que esse governo é incompetente e desonesto, sendo que a sua incompetência é maior ainda do que a sua desonestidade. Ainda bem: pois se fossem mais competentes, estariam nos enganando melhor e isso seria pior para o País. Não se teria progredido tanto nos processos judiciais contra a corrupção, não fosse tão grande a incompetência desses corruptos. Entretanto, o Brasil precisa de muito mais do que simplesmente uma troca de Presidente.

Qual é o desafio da elite brasileira?

É tomar consciência dos nove Brasis, para começo de conversa; e mudar essas proporções, distribuindo renda e educação. Isso não deve ser feito de forma assistencialista, paternalista, marxista ou capitalista. Precisamos apenas de bom senso e honestidade. Isso significa valorizar mais a educação, remunerando muito melhor aos professores e educando-os também, muito melhor. Significa, ainda, reformar nossa estrutura tributária para torna-la mais simples, mais eficiente, mais justa e mais fácil de administrar. A elite deve pagar mais impostos, sim. Valerá a pena, para ter uma sociedade mais justa e mais segura para todos. Não precisamos nos tornar uma nova Suécia; basta apenas nos tornarmos um pouco mais honestos e eficientes do que somos hoje. Isso não é tão difícil; e é o mínimo que podemos fazer para os nossos netos.